Continuação de "UM".
Os olhos abrem, naquele susto. Acordar sem despertador não é um bom sinal. Quando meus olhos são capazes de enxergar alguma coisa, eles me dizem que são 4:48.
"Tudo bem", eu penso. É só pular o café-da-manhã. Me apronto com a velocidade de um motor supercharger a 7000 RPM e, por volta de 5:10, estou dirigindo em direção ao aeroporto.
Dirigir neste comecinho de dia é uma experiência que adoro. Nas ruas, nestas horas, encontramos pessoas bem interessantes. Coroas caminhando antes de ir trabalhar (nós jovens, corremos ao meio-dia para aproveitar o Sol), diaristas descendo dos ônibus e um moleque de terno-e-gravata na sua primeira viagem a trabalho.
Chegando ao aeroporto, estaciono meu folclórico veículo e me dirijo ao portão de embarque. Eu gosto demais do aeroporto. Gostaria de ter mais tempo para passear por lá. O clima de melancolia das 5-e-pouco da manhã era inevitável. Só viaja a essa hora a pessoa que realmente precisa estar no seu destino cedo. Éramos eu eu mais uns poucos lutadores no saguão.
Chamam o meu vôo para embarque. Meu assento é o 5-c (corredor). Fico sem entender aquele amontoado de gente desesperada para embarcar logo, pessoas agoniadas se acotovelando no portão. Oras, o assento não é marcado? Coisas de brasileiro. Sentado, aguardo pacientemente o pessoal entrar e depois me dirijo ao portão.
Entro no avião e me sento. Não gosto muito de voar, mas adoro aviões. Logo vi tudo que poderia fazer ali dentro: aumentar ou diminuir aquele soprinho de ar na minha cabeça, ligar uma luzinha, abrir a bandejinha à minha frente, folhear uma revista. Do outro lado do corredor sentou-se uma moça gorda, bastante gorda. Crachá da Natura, trinta-e-poucos anos, aliança no dedo. Ela abre seu notebook, e começa a ler os e-mails. De repente, ela se lembra de algo, puxa um papel onde está escrita uma poesia de Mário Quintana (não vou saber qual é). A gorda, carente como só ela, abre seu OUTLOOK, transcreve a poesia todinha para um novo e-mail (e eu observando tudo) e começa a fazer algo que eu nunca tinha visto, porém sou vítima diariamente. Começa a endereçar a poesia a todos os endereços eletrônicos que poderia lembrar. Se ela digitasse o meu, eu a interromperia: "O meu não, por favor..." Pensei comigo mesmo: "Então é em momentos como este que nascem essas merdas de e-mails com belas poesias e mensagens de auto-ajuda..."
Ao meu lado, sentaram-se duas amigas. As duas bastante bonitas. Não troquei sequer uma palavra com nenhuma das duas.
O avião decola. Como faz barulho o tal do AIRBUS. Além disso, é um barulho esquisito, tipo dessas sirenes quando há algum problema a bordo (PÉÉÉÉÉM). Confesso que fiquei um pouco assustado neste momento.
Hora do lanche. Aprecio muito a cozinha aérea. Sanduíche de peito de peru com requeijão. Suco de laranja. Comi meu sanduíche em 3 mordidas. Fiquei tímido para pedir outro.
Os vôos da TAM oferecem uma revista de cultura excelente. O cara da minha frente estava lendo, eu não tinha uma. Torci para arranjar a leitura na volta.
O melhor momento de um vôo, para mim, é quando o piloto diz: "tripulação, preparar para pouso". Passam as aeromoças sacando todo mundo, vendo se a bandejas estão fechadas, os cintos afivelados e o assento na posição vertical. Eu deixo a bandeja fechada, mas o assento com uma inclinação imperceptível para as colegas e não aperto o cinto de jeito nenhum.
Touchdown. Em meio aos prédios, aparece uma pista de pouso e o piloto manda brasa. Um clima de expectativa começa quando o avião pára. Novamente coisa de brasileiro. Fica TODO MUNDO esperando as luzinhas se apagarem para, feito uns doidos, se levantarem e tirarem suas coisas do bagageiro superior. Depois dessa zona, fica todo mundo amontoado, de pé, esperando por 10 min a porta se abrir. SENTADO, esperei o pessoal sair e peguei minhas coisas com calma. Estava em SP.
Continua...